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terça-feira, 29 de setembro de 2015

Kinhin: a arte de apenas andar

Prática budista de meditar caminhando pode ser incorporada até na fila de espera


Meet the People Witness the Events Big Mind Zen Center / Flickr: Big Mind Zen Center / CC BY 2.0
Um andar reto, seguro e sereno caracteriza o kinhin
Andar relaxadamente, com o corpo equilibrado e alinhado, organizado naturalmente, movendo-se em passos lentos e curtos, sem pressa de chegar, sem destino a ser alcançado. Andando com os olhos descansados à frente, sem que precisem ficar vagando pela paisagem – seja para contemplar ou vigiar. Andar sem correr atrás das coisas, sem fugir delas, apenas deixando que os fenômenos venham e vão.
A pressão do pé contra o solo, o peso do corpo deslocando-se levemente à frente e novamente se equilibrando, os sons do ambiente, as sensações corporais, os cheiros, os pensamentos manifestando-se e desagregando-se, enquanto se caminha lentamente, ao ritmo da respiração. Andar sem nada buscar, sem de nada fugir. Um andar reto, seguro e sereno.
Esse é o kinhin, a meditação andando do zen-budismo. Formalmente, é realizado entre as sessões demeditação sentada (zazen), mas isso não quer dizer que ele seja uma técnica secundária ou auxiliar, mesmo porque no zen toda ação é meio de prática e a mente deve estar igualmente presente em todas as atividades.
O monge Wajun Souza, do templo Busshinji, de São Paulo, explica que, para os iniciantes, o kinhin muitas vezes tem a única função de movimentar o corpo após um longo período de imobilidade no zazen. “Com o tempo e o aprofundamento da prática, contudo, o kinhin se torna a primeira atividade, em que buscamos manter a mesma atitude interior do zazen, não mais voltado para a parede, mas com o corpo em movimento. O que é dificílimo, pois basta movermos o corpo para sermos atacados por toda sorte de distrações habituais”. Assim, à medida que é praticado, “o kinhin se torna a porta para o que virá depois, que é ‘fazer zazen’ enquanto agimos no mundo”, completa.

Atenção no ato de andar

A prática formal do kinhin se realiza em grupo, em fila indiana, com os participantes movendo-se no sentido horário, formando um retângulo na sala de meditação. Os praticantes caminham de acordo com sua própria respiração, avançando uma pequena distância, correspondente a um pé, a cada ciclo de inspiração e expiração. Ao mesmo tempo, devem manter a postura alinhada e não deixar que a distância em relação ao companheiro da frente diminua ou aumente. Assim, a atenção é plenamente absorvida pelo ato de andar, de forma que a respiração e o movimento de todos os participantes da sala se harmonizem. Isso só é possível quando se abre mão das intenções e vontades determinadas pelo “eu” e abandona-se o corpo, a mente e a respiração.
É preciso mover-se sem perturbar quem está à frente ou atrás; procurar fazer o mínimo de ruídos e tornar-se um com o grupo, uma mente, um corpo, uma respiração e um movimento. Keizan Zenji, um dos patriarcas do zen japonês, assim expressa a forma do kinhin: “A maneira de caminhar é dar meio passo a cada respiração. Caminhe sem caminhar, silenciosamente e sem se mover” (4) (Zazen Yojinki).
Como “caminhar sem caminhar”? Como mover sem se mover? Nesse caminhar, abre-se mão de tudo que é “humano”: não escolhemos o caminho, a postura, a velocidade e o destino. Assim, tudo o que resta é a ação de andar, sem sujeito. Nesse processo, a mente se apazigua e fica disponível para perceber os fenômenos com maior clareza. O princípio é o mesmo do zazen (“apenas sentar”): no kinhin, o praticante entrega-se a “apenas andar”.
Essa maneira de andar propicia que se conheça “um estado de corpo-mente que difere bastante do que costumamos vivenciar no cotidiano. A experiência de kinhin, assim como a de zazen, dá um referencial do grau de presença de corpo-mente que podemos atingir, fazendo o encadeamento perpétuo de pensamentos que vivenciamos normalmente parecer um ruído, em comparação com a serenidade experimentada durante a prática”, afirma a monja Myoshin Mello.

Clareza

Quando nos colocamos em uma situação de espaço, tempo, velocidade e atenção à qual não estamos habituados, isso pode nos proporcionar condições mentais adequadas para percebermos a nós, aos outros e ao ambiente com maior clareza, o que ajuda a desenvolver estados mentais benéficos, como:
  • Pensamento e emoções menos acelerados e mais tranquilos.
  • Corpo e mente presentes na realização de atividades diárias.
  • Ampliação da percepção de si mesmo e do outro como coabitantes do mesmo espaço.
  • Percepção da interdependência e da impermanência da natureza.
  • Apreciação do momento presente sem se estar centrado no “eu”.
  • Percepção da continuidade, unidade ou não separação do corpo, mente e ambiente.
  • Mente atenta 24 horas por dia.
  • Redução da ansiedade.
  • Clareza mental, raciocínio focado e organizado.
Uma potencialidade do kinhin a ser explorada é que muitas vezes é difícil fazermos a transição de um dia a dia movimentado para a imobilidade e quietude da meditação sentada. O mestre Thich Nhat Hanh, em seu livro “Paz a Cada Passo”(2), esclarece que para alguns é muito difícil meditar sentado e que essas pessoas podem se encontrar na meditação caminhando. "Algumas pessoas consideram virtualmente impossível permanecerem sentadas e concentradas com os níveis de dor, agitação e raiva que sentem. Mas elas podem caminhar com isso”, diz. De fato, o kinhin oferece uma experiência de meditação que não é tão abrupta em relação à dinâmica agitada do dia a dia.

Bons lugares para praticar

Apesar de ser uma prática formal em centros, templos e mosteiros zen, o aprendizado do kinhin pode e deve ser levado para o cotidiano, fora do ambiente da sala de meditação. O mestre Thich Nhat Hanh, instruindo sobre a meditação andando, sugere bons lugares para praticar, como a sala de casa, um campo tranquilo, uma clareira no bosque. Keizan Zenji (4) também recomenda a prática ao ar livre: “Vá para as profundezas das montanhas e dos vales. Pratique o kinhin à margem de águas puras e de montanhas verdejantes. Purifique a mente junto a um regato ou sob uma árvore.”
A essas sugestões pode-se acrescentar uma ampla variedade de espaços urbanos, como parques e praças, que podem ser adequados ao kinhin e certamente oferecerão uma experiência esclarecedora – é preciso lembrar que a busca por um local adequado, tradicionalmente, é parte da própria prática.
Se quisermos desfrutar mais profundamente dos benefícios do kinhin, podemos facilmente transpor seus princípios – um andar lento e consciente da postura e do movimento alinhado à atenção na respiração – para as situações corriqueiras do dia a dia. Pode-se praticar um tipo de kinhin numa fila de espera, numa ida ao supermercado, numa caminhada até a padaria etc., como sugere o monge Seigen Mitih: “Podemos observar a respiração em qualquer atividade. No entanto, durante a caminhada, pode ser mais fácil para se concentrar a princípio. Se, por exemplo, deixo o carro ou transporte público e vou a pé para o trabalho ou para a escola, sempre posso praticar”.
O monge Doshin Esteves também concorda: “Andar consciente, correr consciente, trabalhar consciente, enfrentar o trânsito (literalmente um “kinhin sobre rodas”) consciente. No banho, no carro, na fila do banco, no ponto do ônibus... tudo é kinhin, percebendo os movimentos da vida-morte”.
Os antigos mestres zen alertavam seus alunos para a necessidade de estender a prática para fora da sala de meditação. Diz Koun Ejo, em “O Samadhi do Celeiro da Grande Sabedoria”: “Não há apenas a sabedoria do tempo de meditação sentada. Há também aquela que, passo a passo, ato após ato, faz você ver progressivamente que cada fenômeno pode se realizar instantaneamente, independentemente de sua inteligência e de seu pensamento.” (3)
Para aprender e praticar o Kinhin, o melhor meio é dirigir-se a um centro ou templo zen, onde ele é ensinado em associação com o zazen. Uma vez assimilada sua forma e princípios, pode-se aplicá-los ao caminhar diário. Assim, transforma-se um andar restrito, egocentrado, preocupado e tenso num caminhar universal, consciente, em harmonia com os seres, ritmos e movimentos da natureza.
Fonte http://www.namu.com.br/materias/kinhin-arte-de-apenas-andar

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